
Realidades Imprecisas
curadoria Carolina Soares
SESC Pinheiros, São Paulo SP Brasil
Entender que estão as palavras a cumprirem o papel de nomear as coisas do mundo significa inferir a realidade por intermédio de convenções simbólicas para com ela nos relacionarmos. Ainda que evoquem a idéia de sucedâneas do real, as palavras levam a um conhecer que se faz de modo representacional. Ou seja, mesmo diante da naturalidade com que se dá o processo de aprendizagem (torna-se lugar-comum enfatizar que “árvore” – ao ser pronunciada – traz à mente, de modo quase simultâneo, a imagem do objeto ao qual faz referência), a natureza das coisas é tangenciada por mecanismos de re-apresentação do mundo.
Se é possível falar de um automatismo convencional pelas palavras, ele serve de ponto de distinção sobre a realidade do objeto de arte contemporânea cuja compreensão de suas relações internas se dá a partir de aproximações com outros âmbitos da experiência. O campo agora requisitado é o da re-significação das coisas. O enunciado pelas palavras é ampliado em seu caráter conotativo para abarcar outros sentidos. A precisão com que o universo lingüístico trabalha os signos é transmutada prevalecendo agora o seu oposto, a imprecisão.
(…)
Do reconhecer-se no mundo resulta impressões individuais em que o sujeito passa a lidar, de modo singular, com a realidade para dela produzir desdobramentos. Nesse descobrir a si mesmo, experiências são acumuladas e transferidas à memória, ao desejo, ao afeto… E é a partir do contato com esse campo sensível que a arte contemporânea se faz. Diante dos trabalhos aqui sugeridos como Realidades Imprecisas o observador é requerido a todo instante como uma possibilidade repensar os próprios procedimentos e limites da arte.

Em meio a uma natureza subtraída e re-configurada pela ação do Homem, surgem as cidades. Artificiais, elas refletem o desenho dos desígnios humanos. Precisos ou não, são neles que Tatiana Ferraz detém sua atenção. Seus trabalhos em marchetaria sintetizam formas abstraídas por um olhar atento aos planos urbanos.

A série Observatórios, como o próprio título sugere, é exemplar enquanto metáfora dessa ação: um lugar de onde fosse possível observar a qualquer coisa é a proposta do trabalho em que a intervenção se faz pelo ato de olhar.
Carolina Soares
